
Que espelho atravessou para buscar uma valsa, encontrar o cangaceiro Lampião, brincar com os Beatles, samplear o discurso irado do jovem Caetano, ouvir a voz dos elefantes, dedilhar um violão folk, crispar uma guitarra pós-punk, tocar um piano clássico, cantar como Tom Waits, fazer um vocal tipo Mutantes, pensar em inglês e entre tantas influências do passado e do presente inventar seu próprio som?
Onde aprendeu que a sofisticação pode estar na simplicidade e a simplicidade na sofisticação? Que o natural e o eletrônico, o silêncio e o ruído são complementares? Como conseguia cantar só para ele diante de uma multidão virtual e ao mesmo tempo mostrar-se a essa multidão com a segurança de quem está absolutamente só? De que lugar Yoñlu trouxe a vontade de ser vários, a surpresa de ser vários, a tristeza, a melancolia, a angústia de ser vários?
Perguntas, perguntas, Yoñlu deixou uma enorme pergunta tatuada numa tela de cristal líquido e na memória de quem o conheceu, dentro ou fora dessa tela. Sua herança, neste disco, é impressionante. Por todos os motivos, um outro mundo que se desvenda para quem o ouve: música de grande qualidade e expressão, e a foto nítida de uma mente genial presa no corpo de um adolescente que, talvez por isso mesmo, reuniu o universo em seu quarto.
Juarez Fonseca

Essa frase é de um adolescente de 16 anos. Um garoto que amava Radiohead, Mutantes e Vitor Ramil. Foi escrita no dia de seu suicídio. Era parte de sua carta de despedida. Ele dizia aos pais que a música era a melhor maneira de enfrentar o desespero que viria. Antes de começar a morrer, colou a carta no lado externo da porta do banheiro. Acima dela, um cartaz: “Não entre. Concentrações letais de monóxido de carbono”. Vinícius ligou o aparelho de som – “porque é bom morrer com música alegre” – e entrou.
A frase escrita na morte se transformou num legado de vida impressa no encarte do CD lançado em fevereiro pela Allegro Discos, com 23 músicas de sua autoria. Parte delas foi entregue aos pais na forma de uma herança às avessas: “Deixei na mesa do computador um envelope vermelho da Faber-Castell que contém um CD com algumas de minhas músicas”. Yoñlu, o título do CD, é o nome com o qual batizou a si mesmo no mundo em que circulava com mais desenvoltura: a internet.

Vinícius Gageiro Marques deixou o inventário de seu suicídio. Documentou sua morte na carta de despedida impressa em papel e no registro virtual da internet. Seguindo seus passos, é possível chegar ao impasse de uma época em que adolescentes habitam dois mundos – mas os pais só os alcançam em um.
No mundo real, Vinícius estava havia dois meses em internação domiciliar por determinação de seu psicanalista. Ele era um garoto superdotado, descrito como “extraordinariamente inteligente” e “extremamente sensível”.
Filho único do casamento de um professor universitário que foi secretário de Cultura do Rio Grande do Sul com uma psicanalista, ele teve todo o estímulo para desenvolver inteligência e sensibilidade. Alfabetizou-se em francês quando a mãe fazia doutorado em Paris com a historiadora e psicanalista Elizabeth Roudinesco, biógrafa de Jacques Lacan. Mas o mundo doía em Yoñlu, como mostram as letras de muitas de suas músicas. Sua questão não era morrer, mas fazer a dor parar.

Vinícius parecia “curado” no mundo real. Na internet, porém, Yoñlu pedia instruções sobre o melhor método de suicídio. Em 23 de junho, comentou que adiaria sua morte porque muita gente estava elogiando suas músicas. A faixa “Deskjet Remix”, em parceria com um DJ escocês, tocava em festas eletrônicas de Londres. O mundo virtual de Yoñlu alcançava gente de vários países em sites de suicídio e fóruns de música, com quem conversava num inglês desenvolto.

Batizado de A Society in which No Tear Is Shed..., o álbum tem 14 faixas – o editado pela Allegro no ano passado reunia 23 músicas. Em compensação, o disco gringo traz canções que ficaram de fora do brasileiro, como uma versão de "Estrela, Estrela", de Vitor Ramil, e o sambinha de protesto "Olhe por Nós", em que Yoñlu detona um político gaúcho da atualidade: “Pra piorar, até governador tu quer virar / Para o Rio Grande governar / E do poder se aproveitar / Mas eu não vou deixar”.

Yonlu - A Society In Which No Tear Is Shed Is Inconceivably Mediocre (2009)

01 - I Know What It's Like ( 3:03)
02 - Boy And The Tiger ( 5:44)
03 - Humiliation ( 1:57)
04 - Polyalphabetic Cipher ( 3:57)
05 - Q-Tip ( 3:33)
06 - Little Kids ( 1:20)
07 - Katie Don't Be Depressed ( 3:43)
08 - Deskjet (Remix) ( 1:17)
09 - Estrela, Estrela ( 3:21)
10 - Olhe por Nós ( 1:55)
11 - Suicide ( 1:59)
12 - Luona ( 3:34)
13 - Phrygian ( 1:30)
14 - Waterfall ( 3:53)

cara, gostei da música luana, viciante
Diego... Acho que o disco todo é "viciante"....
Abraço
GEnial, me pergunto o que pode ser mais sincero...
damn my not having money! :<
but I would indeed download it if I have some. :3
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