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Grandes discos do Rock Gaúcho 19




Em tempos de misturas musicais cada vez mais gratuitas, visando criar sonoridades “originais” e “diferenciadas”, a Nocet foi na contra mão, praticando algo ironicamente esquecido: rock. O retorno ao básico feito com competência, punch, garra e tesão.

A expressão que a princípio era uma gíria para designar o ato sexual – rock n’ roll – está impregnada de lascívia, provocação, metáfora e energia. É este conceito que o grupo de Santa Maria, Rio Grande do Sul, resgata. O paradoxo da referência está logo aí: cidade com nome de santa, estilo “profano” por natureza. O próprio nome, que vêm do latim, têm na expressão “Quod nocet saep docet” / “aquilo que é nocivo, ensina”, sua essência. Tradição e transgressão andando lado a lado.

Fundado em 1989, o grupo, prestes a completar duas décadas de estrada, já vem calejado para adentrar nesta nova fase do cenário alternativo brasileiro. Neste tempo, a velha forma de se consumir música, que era ditada por grandes corporações, jabás diversos, grandes estruturas de divulgação, dinheiro, muito dinheiro, permitiu que estes rockers gravassem apenas dois álbums.

“N”, de 1997, que os levaram a conquistar elogios da imprensa estrangeira, como as conceituadas Metal Hammer, da Alemanha, Rock Hard, da Grécia, e Burrn Magazine, do Japão e o segundo, Bullets, de 2006, já com a formação power trio atual: Marcus Molina (baixo e vocal), Fabrício Soriano (bateria) e Ben Borges (guitarra)...

A banda Roadies inaugurou a parceria Vertical/Tridente, com um CD+DVD que ficou na história como o primeiro lançamento do tipo (dois em um) do gênero no rock do sul, lançando em 2005 seu disco homônimo. O grupo chegou a tocar bastante tempo na Pop Rock e Atlântida com "I Love" e "Sonho Bom", os Roadies apareceram em telejornal global e se firmaram como uma das boas bandas do cenário gaúcho sendo "apadrinhados" pelo Papas da Língua. Sua formação conta com Guilherme: Baixo e Voz, Odi: Guitarra, Graxa: Guitarra e Chabaco: Bateria...

O Incrível Caso da Música Que Encolheu e Outras Histórias é o terceiro álbum da Ultramen, e como seu trabalho anterior, o octeto demonstra uma vocação irresistível para variar ritmos e estilos, traz um repertório de músicas mesclando de maneira ímpar o soul, o hip-hop, o rap, o funk e o reggae. Destacam-se faixas como o rap "Erga Suas Mãos", com participação da dupla Manos do Rap, o samba-rock da abertura "Santo Forte", temperada com metais e backing vocal feminino, evolui para explorações mais sutis da black music brazuca - evidentes no soul brasileiríssimo de "Alto e Distante Daqui" e no suingue de "Justiça Divina".

A Ultramen também exibe propriedade ao investir no reggae. "Máquina do Tempo", "De Canto e Sossegado" e "Coisa Boa" - com a participação do legendário sambarroqueiro Luís Vagner - são algumas das otímas faixas do disco. Talvez por acaso essas duas últimas soam menos interessantes. Noves fora, A Ultramen contraria o próprio título do disco e apresenta uma música que cresceu, ao invés de encolher...

Reverenciado por várias gerações, como um dos maiores ícones do rock gaúcho, Alemão Ronaldo começou sua carreira ainda na década de 70, foi vocalista da Taranatiriça, passou mais de 20 anos à frente da Bandaliera e iniciou com sucesso sua carreira solo em 2004 com o ótimo cd Onde O Amor se Esconde.

O disco tem sucessos como a faixa-título e entre outras, as faixas "Pinhal", "A Sombra do Teu Amor", " Farol", "Mentiras" e "Agora Somos Família"...

O Acústicos & Valvulados, formado em 1991, ano em que Rafael Malenotti (voz/guitarra/violão), Paulo James (bateria), Roberto Abreu (baixo) e Alexandre Móica (guitarra/violão) se conheceram fazendo o que mais curtem: festa.

De tão fissurados na zona promovida pelos mestres do rock’n roll - que ouviam da manhã até a madrugada - começaram a tocar direto, na marra, no hoje lendário estúdio Bafo de Bira, em Porto Alegre. As primeiras composições surgiram e algumas demos rodaram nas rádios. Chamaram a atenção do VJ Thunderbird, da MTV, que logo convidou a banda para aparecer na emissora.

Em 94 sai o primeiro registro: quatro músicas na coletânea Chá Das Quatro. A banda recebeu diversos elogios da crítica, e seguiu fazendo shows direto. Em 95, o clipe de "Dynamite" os levou para a finalíssima do primeiro Video Music Brasil MTV. Em dezembro, estavam em estúdio gravando seu primeiro CD individual, God Bless You Ass (Paradoxx), lançado em meados de 96.

O trabalho foi uma espécie de coletânea dos cinco primeiros anos de banda. Além de composições mais antigas, registrou o início da fase atual, com as músicas "100 Por Hora" e "Minha Fama de Mau", de Roberto e Erasmo, que virou clipe e entrou na programação da MTV. Mais uma vez a banda colheu uma série de elogios da mídia especializada. Em 98, "100 Por Hora" foi relançada na coletânea "As 15 Mais da Ipanema FM". Vale lembrar que a banda foi "nascida" no rockabilly e ao longo dos anos desdobrou-se em rocks, folks, canções e baladas...

O espetáculo Tangos e Tragédias estreou em Porto Alegre no ano de 1984. Criado por Hique Gomez e Nico Nicolaiewsky, que são também os protagonistas desta comédia musical, encenando respectivamente Kraunus Sang com seu violino delirante e o maestro Plestkaya, com seu acordeom de efeitos fantásticos.

Todos estes anos em cartaz, e ainda tem gente que vai assistir, muitos pela segunda, terceira ou mais vezes. É um cult e a trilha sonora do espetáculo,com arranjos de grande sensibilidade, em seu repertório estão músicas encontradas por Kraunus Sang e pelo Maestro Pletskaia nas lixeiras culturais da Sbørnia, sua pátria natal...

Em Porto Alegre, no ano de 2004, vizinhos e amigos formaram a Família Sarará: uma banda cada vez mais presente no cenário musical gaúcho. São Eles: Lucas Ortiz (voz e violão/guitarra), Alemão Cláudio (baixo), Renato Batera (bateria), Antonio Macalão (percussão), Nego Tigas (percussão), Gabriel Uh’Gamba (sopro), Ronald Franco (sopro), Samuel Brentano (sopro).

O nome da banda é a pintura de sua filosofia: “Família” representa a forma de trabalho e sua capacidade, que tem como alicerce a valorização do relacionamento entre os integrantes e é fundamentada na importância do espaço livre para idéias e opiniões. “Sarará” simboliza sua essência e a intenção, através da combinação de culturas, da releitura de gêneros musicais e da interpretação do que o público aprecia com um pouco de vanguarda.

No dia 21 de dezembro de 2007, a Família Sarará gravou seu Ao Vivo, em um show inédito de dezoito músicas próprias. Amigos, familiares, músicos e fãs que acompanham o trabalho da banda lotaram o Teatro de Câmara Túlio Piva, onde ocorreu o evento...

A Graforréia Xilarmônica foi fundada em 1986 nesta época faziam parte da banda Carlo Pianta (ex-DeFalla, Colarinhos Caóticos e Ceres, guitarra e vocal), Frank Jorge (ex-Prisão de Ventre, Cascavelletes e Obsolethos, baixo e vocal), Marcelo Birck (ex-Prisão de Ventre, guitarra e vocal) e Alexandre Ograndi (ex-Prisão de Ventre, bateria).

Desde o inicio das suas atividades a Graforréia se mostrou ser uma banda de vanguarda apresentando sempre um diferencial para o seu público ela. O som meio nonsense era (é) um crossover de regionalismo gaúcho, rock dos anos sessenta (The Beatles, Kinks, Zombies, Beach Boys), Frank Zappa, jovem guarda, punk rock e mais uma certa dodecafônia, um atonalismo tudo com uma leve tendência Pop no melhor sentido que essa denominação poderia ter.

Chapinhas de Ouro, o segundo CD da Graforréia, surgiu em 1998, foi gravado independentemente, e lançado pelo selo ZOOM Records, trazendo no repertório "Iluminados Monstros do Amor", "Beethoven", "Eu Gostaria de Matar os Dois", entre outras...

Nascidos em Pelotas e recém-chegados a Porto Alegre para estudar engenharia, os irmãos Kleiton e Kledir Ramil, mais três amigos da região Sul do estado, criaram o grupo Almôndegas. Formada por Kleiton (violão, violino, percussão e vocal), Kledir (violão, flauta, pente e vocal), Gilnei Silveira (bateria e percussão), João Batista (baixo) e Zé Flávio (violão e guitarra).

O ponto de encontro da turma era a Rádio Continental, que passou a gravar os novos músicos gaúchos em seu estúdio de dois canais e colocá-los na programação. Em pouco tempo, a Continental tornou-se a preferida dos jovens porto-alegrenses. Do sucesso no rádio vieram os shows, mobilizando multidões de duas, três, quatro mil pessoas e despertando o interesse das gravadoras.

Leia abaixo uma resenha da época feita por Juarez Fonseca (clique na imagem para ampliar)


O Almôndegas lançou seu primeiro LP em 1975, Almôndegas, tornando-se o mais popular grupo sulista. Na base de violões e belas harmonizações vocais, misturando MPB, rock e folclore gaúcho, o grupo marcou época. Tanto, que várias de suas músicas continuam a ser tocadas e gravadas. Depois do segundo disco, em 1976, sucesso nacional com "Canção da Meia-Noite" (incluída na trilha da novela Saramandaia), o Almôndegas mudou-se para o Rio. Foi o começo do fim...

Em 1998 quatro amigos começaram a tocar juntos pra passar o tempo e se divertir. Nada de novo nisso. O som que eles tocavam (ou que eles conseguiam tocar) era tosco e rápido. Naquele momento do século passado, acreditem, isso até parecia novo. O rádio tocava atrocidades como Spice Girls, É O Tchan e boy bands em geral. Rock não estava na moda, a internet engatinhava e as bandas, de modo geral, aparentavam ter esquecido os princípios básicos de simplicidade e diversão.

Bel (guitarra), André (guitarra), Mauro (voz) e Raul (bateria), todos com o sobrenome artístico Rocha, formam os Irmãos Rocha!, que, como todo mundo sabe, não são irmãos. Surgido em 1998 apenas para divertir seus integrantes, o grupo faz um autodenominado rock regressivo, apostando na simplicidade e na concisão, influenciados por Troggs, Sonics, Ramones e Cramps.

A banda cresceu inesperadamente, fazendo shows esporádicos para um público incerto, até lançar seu primeiro disco cheio. Ascensão e Queda dos Irmãos Rocha! saiu em 2004, pela gravadora goiana Monstro Discos. Irmãos Rocha! é, na própria definição do grupo, mais vontade que talento.

O CD tem os velhos hinos "Meteoro37" e "Ugabugababy", que eram do EP "Mais Vontade do Que Talento". E as inéditas "Uma Coisa Medonha", "Amadeu Tatu" e "Pechada". O disco tem 20 músicas e uma duração de 34 minutos e 40 segundos. Na verdade 21, porque tem uma música escondida. É todo o material que a banda conseguiu gravar desde 2000, quando os Irmãos Rocha! foram formados.

Mais de dez anos depois, o rock é inevitável. A Ivete Sangalo usa uma camiseta dos Ramones na capa da Capricho. O filho de um ano da Angélica também. As bandas de rock, apesar das suas tatuagens e piercings, são de um bom-mocismo constrangedor. Rock, hoje, é tão ameaçador quanto um pote de margarina. Rock é tão visceral quanto uma reunião de marketing. Rock? Salva ninguém!

Nesse contexto, os Irmãos Rocha! derão o seu adeus. Que novas bandas sigam lembrando o mundo do rock como era no início e apostem na simplicidade, na emoção de tentar acertar alguma música. Tomara que consigam, mas isso é problema das outras bandas. Agora é hora de beber o morto! Dia primeiro de abril, deste ano, não por acaso dia dos bobos, receberam os enlutados para seu derradeiro show. E não houve novidades! A idéia foi a mesma: rapidez, simplicidade e diversão. Pela última vez.


DOWNLOADS:


Nocet - Bullets (2006)












01 - Golen Frankenstein
02 - Color Dream
03 - Maragato Robot
04 - Rock Around The 'Clockwork'
05 - Dé Jà Vu
06 - Used To Be The Number One
07 - Neighbourhood's Song
08 - Brainstorm
09 - Sunset in Blue
10 - Glass People
11 - Sex With Tequila
12 - Carnivalier





Roadies - Roadies (2005)












01 - Menina Desvairada
02 - Sei o Que Você Faz
03 - Ana Carolina
04 - Essa Menina
05 - Tudo Liberado
06 - Garota Nota 100
07 - Tarde Demais
08 - O Que Acontece
09 - Pra Sempre
10 – Afunda
11 - Sonho Bom
12 - I Love
13 - Pedrinha de Gelo
14 – TPM
15 - A Coloninha





Ultramen - O Incrível Caso da Música Que Encolheu e Outras Histórias (2002)













01 - Santo Forte
02 - Alto e Distante Daqui
03 - "3"
04 - Máquina do Tempo
05 - De Canto e Sossegado
06 - Confessionário
07 - Erga Suas Mãos
08 - Coisa Boa
09 - Fantasmas
10 - Justiça Divina
11 - Grama Verde
12 - Oigalê
13 - Máquina do Tempo (Dub Mekka Victor Rice Remix #4)





Alemão Ronaldo - Onde O Amor Se Esconde (2004)













01 - Vem Sem Medo
02 - A Noite Toda
03 - Pinhal
04 - Onde O Amor Se Esconde
05 - A Sombra do Teu Amor
06 - Mentiras
07 - Se Ela
08 - Sinais Tribais
09 - Farol
10 - Pra Que
11 - A Hora Errada
12 - Agora Somos Família





Acústicos e Valvulados - God Bless Your Ass (1996)













01 - God Bless Your Ass
02 - Bone And Skin Girl
03 - Minha Fama De Mau
04 - In The Streets Again
05 - Kickin’ It All
06 - 100 Por Hora
07 - Route 66
08 - Dynamite
09 - I Got You Babe
10 - Out Of Time, Out Of Place
11 - Something Else
12 - Back To ‘55
13 - Wop Bop Boogie





Tangos & Tragédias - Ao Vivo (1988)













01 - Desgrazzia Ma Non Troppo
02 - A Trágica Paixão de Marcelo por Roberta
03 - O Romance de uma Caveira
04 - Noite Cheia de Estrelas
05 - Coração Materno
06 - Ana Cristina
07 - Tango da Mãe
08 - O Ébrio
09 - A Verdadeira Maionese
10 - O Drama de Angélica
11 - Berlim-Bom Fim
12 - Roxane
13 - Meu Erro
14 - Eleven's Train
15 - Aquarela da Sbórnia
16 - Copérnico
17 - I Shot The Sheriff
18 - O Trenzinho Caipira





Família Sarará - Ao Vivo (2008)













01 - Tumá
02 - Olhos de menina
03 - Rasta de bombacha
04 - Veja não com os olhos
05 - Uirapuru
06 - Majestoso
07 - Não me condene
08 - Poetisa (part Jow do EMEPE-4)
09 - Nego do batuque
10 - Espírito guerreiro
11 - Vícios de solidão
12 - Flecha
13 - Achou
14 - Salsa
15 - Munidos de amor
16 - Black music
17 - Semente d’eu e eu
18 - Abajur





Graforréia Xilarmônica - Chapinhas de Ouro (1998)













01 - Eu Gostaria de Matar Os Dois
02 - Meus Dois Amigos
03 - Pensando Nela
04 - Beethoven
05 - Eu
06 - Mixto Quente
07 - Iluminados Monstros do Amor
08 - Benga na America Central
09 - Baby
10 - Colégio Interno
11 - Benga Minueto
12 - Fulvio Sillas





Almôndegas - Almôndegas (1975)












01- Sombra Fresca E Rock No Quintal
02- Até Não Mais
03- Teia De Aranha
04- Olavo E Doroteia (Uma Louca Historia De Amor)
05- Quadro Negro
06- Go
07- Daisy, My Love
08- Almôndegas
09- Vento Negro
10- Clô
11- Amargo





Irmãos Rocha! - Ascensão E Queda dos Irmãos Rocha! (2004)













01 - Anestesia
02 - Uma Coisa Medonha
03 - Bumbababum
04 - Amadeu Tatu
05 - Pechada
06 - Eu & Vc
07 - DVQÈQN
08 - A Capela
09 - Zen
10 - Beibeam
11 - Música 1
12 - Suicídio na Calçada
13 - Vem Delícia
14 - Oh Yeah! Allright! Let's Go!
15 - Eu Não Tô Sentindo Nada
16 - Rock
17 - Meteoro 37
18 - Ugabugababy
19 - First Time
20 - Dadada
21 - NQÉQVD (hidden track)

A Rádio Rebelde de Roberto Marinho

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Para homenagear o DIA DO GAÚCHO - 20 DE SETEMBRO, o Durango-95 compartilha com seus amigos o raro CD Radio Continental - O Som Nosso de Cada Dia, que vem encartado no fascinante livro "Continental - A Rádio Rebelde de Roberto Marinho", escrito por Lucio Haeser. A história se passa nos anos 70, que foram os mais duros, cruéis e sangrentos da ditadura militar. O governo entupia o povo de mensagens ufanistas enquanto, nos porões, prendia, torturava e matava sem dó nem piedade. Os meios de comunicação tinham sua liberdade vigiada, qualquer informação ou música a ser transmitida passava pelo crivo implacável da Censura. Em Porto Alegre, no entanto, havia uma voz que enfrentava abertamente o poder estabelecido: a Rádio Continental AM, operando na frequência de 1120 Kilohertz.

A emissora, pertencente ao Sistema Globo de Rádio, foi dirigida entre 1971 e 1977 pelo publicitário Fernando Westphalen, o Judeu (foto abaixo), que corajosamente implantou uma programação arrojada, mesclando música e informação de qualidade e falando diretamente ao público jovem. Vários programas da Superquente, como era conhecida a Continental, maracaram época, entre eles o 1120 é Notícia, informativo que atacava e contestava as arbitrariedades governamentais com sarcasmo, ironia e inteligência - e que custou advertências e suspensões à emissora -, e o Mr. Lee In Concert, comandado por Julio Fürst, que passou a apresentar a novíssima música dos Pampas e revelou nomes como o grupo Almôndegas, do qual faziam parte os irmãos Kleiton e Kledir Ramil, e os compositores Nelson Coelho de Castro, Hermes Aquino e Bebeto Alves, todos em gravações exclusivas feitas, na maioria, nos estúdios da rádio.

Repleto de histórias curiosas e informações, o livro mostra, embasado em uma série de entrevistas e depoimentos e em farta documentação escrita, a ascenção e o declínio da Continental (que em 1980 sofreu intervenção dura da direção do Sistema Globo de Rádio, que implantou uma nova programação e pouco tempo depois mudou o nome da emissora para Rádio Globo), além de dar um abrangente panorama da música e da radiodifusão no Rio Grande do Sul.

A obra traz um CD encartado com algumas das gravações dos músicos gaúchos realizadas nos estúdios da emissora, entre elas a primeira versão de "Nuvem Passageira", canção de Hermes Aquino que fez sucesso em todo o país ao ser incluída na trilha da novela global O Casarão, em 1976, "Testamento", do poeta José Fogaça, atual prefeito de Porto Alegre (e ex-locutor da Continental), com os Almôndegas, e "Magricela", de Nelson Coelho de Castro, com o autor, além de uma faixa com vinhetas e aberturas de programas da Continental.

Uma obra indispensável para jornalistas, estudantes e professores de história, publicitários, músicos e toda pessoa que gosta de saber mais sobre o seu passado. O autor criou também um site que traz muitas informações sobre a rádio, o www.continental1120.com.br .

A seguir o próprio autor descreve a saga.

Continental - A Rádio Rebelde de Roberto Marinho, lançado pela Editora Insular em 29 de novembro de 2007 na Livraria Cultura de Porto Alegre é ma idéia que nasceu em novembro de 2001, quando morava em Florianópolis, e começou a ser colocada em prática poucos meses depois, em um contato com Francisco Anele Filho.

A idéia era escrever um livro sobre a Rádio Continental e encartar um CD com as gravações dos músicos gaúchos que a rádio produzia e rodava. Àquela altura, eu sequer sabia se as fitas existiam. Poucas rádios preservam a sua história. Ainda mais uma emissora que havia mudado de administração e de programação em 1980 e trocado de dono em 1986.

Mas a história da Continental é especial. Monsieur Anele tinha as gravações dos músicos porto-alegrenses que rodavam nos anos 70 na Rádio Continental - 1120 AM - A Superquente. E ele se dispôs a abrir o baú. Graças, Anele.

Graças também a Júlio Fürst, o Mr. Lee, - que foi o primeiro guardião das fitas - um importante capítulo da história da música de Porto Alegre está preservado. E pode voltar a emocionar todos os ouvintes da Continental e ser melhor conhecido pelas novas gerações. Um CD será encartado no livro. Mas aqui no site é possível ouvir alguns áudios clicando no menu à direita da página inicial. São vinhetas da Continental e trechos de músicas. Também a Rádio Sem Fronteiras roda músicas do movimento gaúcho. É só clicar no seu player favorito.

Além da história ligada à música de Porto Alegre, a Continental vinha, desde 1971, num embate com a ditadura militar. Dirigida por Fernando Westphalen, o Judeu, a rádio coleciona punições, ameaças da ultradireita, e várias "visitas" são feitas por diretores e redatores à sede da Censura para explicações sobre os textos.

Uma história puxa a outra, e as entrevistas e buscas de documentos são feitas ao longo de seis anos. Nas horas de folga , é claro, mais fins de semana e férias. Foram ouvidas 90 pessoas, algumas várias vezes. Até o momento final da entrega do texto para a editora, agora morando em Brasília, estava descobrindo coisas. Portanto, não é uma história acabada. Muito ainda há que se escrever sobre a Continental. Mas há muitas e boas histórias que justificam a publicação. A mudança para Brasília foi providencial: aqui consegui documentos inéditos sobre a 1120. O arquivo do SNI sobre a rádio.

Virei ouvinte da Continental no fim de 1972, com 13 anos recém-completos. Fazia um esforço danado para ouvi-la. Na região onde morava, em Santa Cruz do Sul, pegava muito mal. O sinal era fraco, mas audível. E valeu muito a construção de uma antena.

Ao iniciar o trabalho, queria saber que fim tinham levado as gravações originais da 1120.

Não me conformava com o fato de que nunca mais iria ouvir aquelas fitas.

Enfim, assim como eu tenho as minhas lembranças da Continental, sei que milhares de outras pessoas têm as suas. Muito mais intensas, certamente. Então é hora de conhecer um pouco mais estas histórias. De um tempo em que os jovens tinham "a sua rádio" com muito orgulho.

Espero que gostem. Tanto quem conheceu como quem nunca ouviu falar da Rádio Continental de Porto Alegre. Foi o que sempre desejei durante a realização do trabalho.

Lucio Haeser
Outubro de 2007


>>>Adaptado por RamonR do texto de Toninho Spessoto - Pesquisador musical.
>>> O livro pode ser encontrado nos sites de venda online por R$40,00.


FAIXA A FAIXA por Emilio Pacheco

1 - "Testamento" - Almôndegas

Composição do atual Prefeito de Porto Alegre, José Fogaça, que também é autor de "Vento Negro", um dos grandes sucessos do primeiro LP dos Almôndegas (e de muitas outras letras musicadas por parceiros diversos e gravadas por intérpretes como MP4, Nara Leão e Fafá de Belém). "Testamento" nunca havia sido lançada em disco. Imaginava-se que poderia entrar no terceiro LP dos Almôndegas, já que a Continental a tocava bastante em 1976, juntamente com as também inéditas "Piquete do Caveira" e "Alhos com Bugalhos". As duas últimas entraram no disco, mas "Testamento" ficou de fora. Sai agora, finalmente, com o livro. Essa gravação foi feita no estúdio 2 da rádio e a formação dos Almôndegas era: Kleiton (violão), Kledir (violão e vocal solo), Quico Castro Neves (violão), João Batista (baixo) e Gilnei Silveira (percussão). Dizem que Zé Flávio também participou da gravação, mas nessa época ele ainda não pertencia aos Almôndegas e sim ao Mantra. A música é uma bonita homenagem de Fogaça a seu filho: "Um pouco da minha morte / No teu corpo eu plantei / Pouco importa tua estrada / De vagabundo ou de rei / Na tua barba que é a minha / No teu sexo que é o meu / No teu sonho eu viverei".

2 - "Machu Picchu" - Hermes Aquino

Essa era a música mais conhecida de Hermes Aquino em Porto Alegre antes de ele estourar com "Nuvem Passageira". Quando o noticioso "1120 é Notícia" anunciou no começo de 1976 que Hermes estava indo a São Paulo para gravar seu compacto pela Tapecar, já avisou que uma das faixas seria "Macchu Picchu". Ela viria a ser o lado A do disquinho, mas quando o lado B entrou numa novela, a história tomou um novo rumo. Mais sobre isso adiante. No CD está a gravação que a rádio tocava com exclusividade para os ouvintes, registrada ao vivo no primeiro concerto coletivo "Vivendo a Vida de Lee" em 1975, no Teatro Presidente.

3 - "Aos Anos 70" - Utopia

Composição que virou uma espécie de hino daqueles tempos em Porto Alegre: "Anos 70 que serão dez... anos 70 que serão dez..." O Utopia era o grupo de Bebeto Alves (naquela época conhecido como Bebeto "Nunes" Alves) e os irmãos Ricardo Frota no violino e Ronaldo Frota no violão. A gravação é de 1975.

4 -"Magricela" - Nélson Coelho de Castro

Nélson Coelho de Castro estreou na Continental em 1976, depois de participar do Musipuc daquele ano com "Versos de Proa". Mas "Magricela" só entrou na programação no ano seguinte, não mais no programa de Mr. Lee, que havia terminado, mas sim no "Mestre Júlio" às 6 da tarde. Essa música também é conhecida de quem assistia ao Portovisão, na TV Difusora, Canal 10. O apresentador Fernando Vieira mostrava um tape (na época ainda não se dizia clip) em que Nélson e o grupo Olho da Rua interpretavam a música ao vivo no estúdio. A música é cantada por Nélson e sua irmã Suzana. Nessa época eles sempre faziam dueto. Nélson viria a lançar vários discos em vinil e CD, mas "Magricela" está sendo lançada pela primeira vez com o livro.

5 - "Terras Estranhas" - Inconsciente Coletivo

O Inconsciente Coletivo durou pouco, mas deixou saudade. As violas e belas harmonias vocais de Alexandre Vieira, João Antonio Araújo e Ângela Langaro faziam desse grupo um dos mais queridos dos programas de Mr. Lee. Depois entrou Calique Ludwig no baixo. Eles chegaram a lançar um compacto simples pela Tapecar em 1976 com "Voando Alto" e "Fadas Douradas", mas a produção descaracterizou completamente o som acústico do conjunto. O grande momento do Inconsciente Coletivo foi o show "Sul, Primeiros Passos", apresentado no primeiro semestre de 1977 no auditório da Assembléia Legislativa, numa fria noite de segunda-feira. Ali, além de mostrar composições próprias, homenagearam colegas do movimento musical gaúcho, antecipando o modismo do "show de tributo". Reforçados por Fernando Pezão na bateria, o grupo interpretou, entre outras, "Guantanamo" de Hermes Aquino, "Em Meio aos Campos" de Fernando Ribeiro (com vocal solo de Ângela), "Daisy My Love" dos Almôndegas (com vocal solo de Calique), "Rei" do Hallai Hallai (com vocal solo de João Antônio), "Azulão" de Carlinhos Hartlieb e "Portas e Janelas" de Zé Flávio (com vocal de Fernando Pezão). Alguém tem esse show em fita? Eu quero cópia! "Terras Estranhas" entra no CD na gravação do estúdio 2 da rádio, com Alexandre, João Antônio e Ângela (ou Xandy, Tonho e Anginha, como viriam a ser creditados no compacto da Tapecar). Finalmente o som do Inconsciente Coletivo está sendo lançado em disco em sua versão pura e acústica, sem pasteurizações.

6 - "Margarida do Brejo" - Zé Flávio e Mantra

Mesmo antes de entrar para os Almôndegas em 1977, Zé Flávio era uma lenda do rock gaúcho como "guitar hero" do grupo Mantra (e também autor de três sucessos de seu futuro grupo: "Sombra Fresca e Rock no Quintal", "Amor Caipira e Trouxa das Minas Gerais" e o sucesso nacional "Canção da Meia-Noite"). "Margarida do Brejo" conta a divertida história de uma fã que sempre dava um jeito de assistir aos ensaios do Mantra.

7 - "Pense" - Status 4

Esse era o antigo nome do atual grupo vocal negro Status, que mantém dois integrantes da formação original. Quem ainda não ouviu o CD "Velhos Amigos" não sabe o que está perdendo. Hoje são três vozes masculinas, mas nos anos 70 o "Status 4" era formado por dois rapazes e duas moças. São as quatro vozes que se ouvem nessa gravação do estúdio 2 da Continental. Por sinal, essa música também foi gravada pelo grupo para o quadro de Fernando Vieira no Portovisão, na TV Difusora.

8 - "Advertência" - Bizarro

O Bizarro era uma das bandas de rock pesado de Porto Alegre nos anos 70. "Advertência" é de autoria do guitarrista Carlinhos Tatsch. Integraram a banda também o baterista Gélson Schneider, o baixista Mário Monteiro e depois Mitch Marini. Soube pelo Carlinhos que Mitch faleceu de câncer no começo do ano. Pelos meus cálculos, devia ter menos de 50 anos.

9 - "Rei" - Hallai Hallai

Outro inesquecível grupo vocal daquela época. Sua contratação pela Tapecar chegou a ser anunciada juntamente com a do Inconsciente Coletivo em 1976, mas o disco nunca saiu. Somente em 1983 lançaram um compacto simples independente com as músicas "Meu Lugar" e "Segurando o Vento". Em 1986, gravaram um LP pelo selo 3M com o nome de "Hallai", mas o som do grupo estava muito mudado (leiam sobre isso aqui). O Hallai Hallai de que todos temos saudade é mesmo o de 1976 e é esse que estará no CD. Alguns ex-integrantes do grupo estão hoje na banda Cavalo Doido. O Hallai Hallai tem uma comunidade no Orkut.

10 - "Monumento à Poluição" - Gilberto Travi e Cálculo IV

Esse é o mesmo Gilberto Travi que depois integraria os Discocuecas. Nessa época ele já tinha uma veia humorística, mas gostava também de compor músicas de otimismo e crítica ao cotidiano. "Monumento à Poluição" era uma das mais tocadas no programa de Mr. Lee em 1976: "Lá na minha rua tem uma baita chaminé / Que grandalhona que ela é / E larga uma fumaça que mata até bicho do pé (...) / Por isso minha gente preste muita atenção / Quando passarem por essa chaminé / Muito respeito porque ela é / Um monumento à poluição." Quando a Warner chegou ao Brasil no mesmo ano, tentou contratar Gilberto Travi como solista, mas ele se via como integrante de um grupo e só aceitaria se os músicos do Cálculo IV também entrassem. O contrato acabou não saindo.

11 - "Aonde Vai Você?" - Cláudio Vera Cruz

Antes de entrar para a programação da Continental, essa música havia sido divulgada num clip especialmente produzido para o "Transasom" de Pedrinho Sirotsky em 1977. Inclusive, ela foi anunciada com seu título completo: "Aonde Vai Você, Vendedora de Rapadura". Já na Continental, no programa de "Mestre Júlio", o mesmo áudio (gravado no estúdio da antiga Isaec, na Senhor dos Passos) foi divulgado com o nome encurtado para "Aonde Vai Você". Essa bonita composição de Cláudio Vera Cruz com letra de Paulinho Buffara chegou a ser lançada em disco pelo Impacto, com vocal do baixista Vasquez. Agora teremos a gravação original de Cláudio Vera Cruz no CD do livro.

12 - "Flor de Klô" - Simbiose

Linda composição acústica de Rogério Lauda com vocal de Zezinho Athanásio, o mesmo que depois se lançaria para todo o Brasil como o roqueiro Joe ("Já Fui" e "Me Leva Pra Casa"). Aqui ele canta num registro bem alto, quase um falsete, lembrando Ney Matogrosso e também Beto Guedes da fase "A Página do Relâmpago Elétrico". Essa é uma de minhas preferidas do CD. Um dia em 1977 eu tinha ido à Continental para tratar de algum assunto envolvendo o meu irmão (João Carlos Pacheco, que era locutor da rádio), quando fui chamado para pedir uma música para o programa "Participarada". Tive que escolher de uma lista, mas quando vi "Flor de Klô" (foi ali que fiquei sabendo que era com "K"), não tive dúvidas. Depois ouvi minha voz gravada no ar: "Eu queria ouvir na Participarada, com Simbiose, 'Flor de Klô'". Pena que não gravei.

13 - "Sonho" - Toneco

Toneco era mais conhecido como o exímio violonista do grupo que acompanhava Fernando Ribeiro, mas ele também canta - e muito bem. Será um prazer ouvir a voz dele no CD além, é claro, de seu bem executado violão.

14 - "Nuvem Passageira" - Hermes Aquino

Essa não é a gravação que o Brasil todo conheceu a partir da novela "O Casarão" e sim o registro feito no estúdio 2 da Continental. O ruído de vento que entra e sai foi tirado de um disco de efeitos sonoros. Quem poderia imaginar, naquele momento, que essa música seria um dos maiores sucessos de 1976 em todo o Brasil, chegando a ser citada na revista americana Billboard (como "Hermes de Quino")?

15 - "Novo Lugar" - Inconsciente Coletivo

Na época eu ouvia essa música, mas não sabia o nome. Era uma de minhas preferidas do Inconsciente Coletivo, num clima envolvente e melancólico. Faltou dizer lá em cima que João Antônio Araújo passou pelos Discocuecas como "Toninho Badaró", foi locutor de rádio (um dos primeiros da Cidade de Porto Alegre), garoto propaganda do Tevah e atualmente é um dos donos do Abbey Road, onde ainda toca. Xandy é proprietário do Sgt. Pepper's e também continua fazendo música. Ângela é psicóloga.

16 - "Portas e Janelas" - Zé Flávio e Mantra

Um blues típico do grupo de Zé Flávio, inclusive citando Porto Alegre na letra. Uma curiosidade: o baterista do Mantra era Fernando Pezão, que depois passaria por Inconsciente Coletivo (show "Sul, Primeiros Passos", citado acima), Almôndegas (somente em shows), Saracura, Discocuecas até chegar nos Papas da Língua, onde está hoje.

17 - "De Manhãzinha" - Utopia

Mais uma do grupo de Bebeto "Nunes" Alves e os irmãos Frota.

18 - "Arquivo Continental 1120" - Eu sei que, para muita gente, esta parte final é a mais esperada do CD: vinhetas exclusivas da rádio. O que teremos aqui? Bem que eu gostaria de divulgar em primeira mão, mas quem está preparando tudo é o técnico de som Francisco Anele Filho, o "Monsieur Anele", como Cascalho o chamava. Estou torcendo para que entre a característica do "1120 é Notícia" e também a música de fim-de-ano de 1976: "Os tempos andam meio tristes / E a incerteza vai continuar / Você que é jovem se console / Pois tem tempo pra esperar / Talvez dê em nada, talvez seja igual / Mas é ano novo, creia / É tempo bastante pro mundo mudar".


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RamonR